#92 Henrique Leitão – Os mitos surpreendentes da História da Ciência


Henrique Leitão, doutorado em Física, Prémio Pessoa em 2014, é investigador em História da Ciência, sendo actualmente Presidente do Departamento de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Lisboa (FCUL). Interessa-se, em particular, pela história das ciências exactas nos séculos XV-XVII, pela história da ciência em Portugal e pela história do livro científico.

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Foi uma conversa fascinante e surpreendente, esta, uma daquelas que me fizeram olhar com outros olhos para a História – neste caso a da Ciência – e até mesmo para o mundo em que vivemos.

O Henrique já me tinha sido recomendado há muito tempo, mas confesso que fui hesitando, basicamente por recear que a História da Ciência fosse já um tema demasiado explorado, e sem grande matéria para discussão no podcast. Isto, claro, para além do interesse das descobertas científicas propriamente ditas e do trabalho das grandes figuras de referências. 

Não podia estar mais enganado! Na verdade, a História da Ciência, sobretudo a História de como, a partir do século XVI houve uma transição para aquilo a que chamamos Ciência Moderna, tem muito que se lhe diga. E esta área da Historiografia ganhou uma nova vida nos últimos 50/60 anos; nova vida essa da qual, falo por mim, tinha pouca noção. 

Neste último meio-século surgiu um debate intenso sobre uma série de factores que sobressaem numa análise mais fina e ampliada daqueles tempos e que eram, até ali, ignorados ou subvalorizados; aspectos que  que nos fazem perceber que as transformações que ocorreram naquele período são muito mais complexos do que a história que nos é habitualmente contada, do surgimento, quase que por geração espontânea, de um modo diferente de olhar e estudar o mundo natural. 

Nesta conversa, percorremos uma série desses aspectos; por exemplo

  1. Será que os grandes nomes da chamada Revolução Científica pensavam como os cientistas actuais? O que dizer, por exemplo, da paixão de Newton pela alquimia, ou pela cronologia bíblica?
  2. Qual foi o motor daquela transição: um pequeno número de génios e momentos de inspiração, ou uma mudança mais transversal na organização da sociedade e na maneira como as pessoas olhavam o mundo?
  3. E essa transição ocorreu exclusivamente em alguns países do centro da Europa, ou foi um fenómeno pan-europeu? Que influência tiveram, por exemplo, os descobrimentos?
  4. E como é que áreas como a Astronomia já tinham dado o grande salto para a modernidade em meados do sec XVII, enquanto a Biologia, por exemplo, teve de esperar mais dois séculos para uma verdadeira mudança de paradigma?
  5. E, por fim, se a História é tão complicada e cheia de matizes, será que ainda faz sentido falarmos de uma Revolução Científica, ocorrida entre 1500 e 1700?

Foram estas e outras perguntas que discutimos, numa conversa que foi um pouco mais ziguezagueante do que o habitual (sorry!). 

 

Índice da conversa:

  • Que tipo de História é, afinal, a História da Ciência?
  • A visão simplista da História da Ciência, e da “Revolução Científica”, que ainda hoje nos é transmitida
  • Limitação #1: Os primeiros cientistas não pensavam, em muitos aspectos, como nós
    • O desconforto que nos cria o interesse de Newton pela alquimia
    • Os preconceitos de Darwin
  • Limitação #2: A influência do contexto cultural e social em que actuavam os primeiros cientistas no tipo de Ciência que fizeram
    • Frances Yates (historiadora de ciência)
    • Boris Hessen (historiador de ciência) – “As Raízes Sócio-Económicas dos Principia de Newton”
    • O (alegado) papel do protestantismo no lançamento da Ciência Moderna
  • A herança pré-moderna: Europa medieval, mundo Árabe
  • Limitação #3: O papel fulcral dos artesãos na criação da Ciência Moderna
  • Limitação #3(b): As grandes descobertas científicas enquanto produto de saberes e debates partilhados num contexto social alargado
    • O papel de Galileu
  • Limitação #4: O papel da herança grega e da visão judaico-cristã na criação de um modo diferente de olhar para o mundo natural, já presente na Idade Média
    • Os perigos e as limitações da pulsão relativizadora da Historiografia 
  • Limitação #5: Como a ciência convive com teorias parcialmente erradas até encontrar melhor 
    • Thomas Kuhn (filósofo de ciência)
    • Ciência feita vs. o processo através do qual se faz ciência 
    • Como é possível que a Revolução Científica tenha surgido precisamente num período tão marcado por conflitualidade e fechamento na Europa?
  • Limitação #6: A transição para a modernidade científica enquanto fenómeno pan-europeu, e não apenas localizado num pequeno conjunto de países protestantes
    • O papel dos descobrimentos na primeira fase desta transição (Sec XVI)
    • O desenvolvimento da Ciência na Europa beneficiou de contributos do oriente (China, Japão)?
  • O que é especial (ainda hoje) na cultura europeia 
    • A importância da inscrição social da ciência e da curiosidade pelo mundo natural
  • Limitação #7: As mudanças de paradigma não ocorreram na mesma altura e ao mesmo ritmo nos diferentes ramos da Ciência
  • Sendo assim, ainda faz o não sentido falar de uma Revolução Científica?
  • Mistérios em torno da Revolução Industrial
  • Livro recomendado: Galileu, Cortesão – A Prática da Ciência na Cultura do Absolutismo, de Mario Biagioli

 

Obrigado aos mecenas do podcast:

Paulo Peralta, Eduardo Correia de Matos, João Baltazar, Salvador Cunha, Rui Oliveira Gomes, Tiago Leite, Joana Faria Alves, Carlos Martins, Corto Lemos, Margarida Varela, Gustavo, Goncalo Machado Monteiro, Filipe Bento Caires, Rui Barbosa

Tomás Costa, Tiago Neves Paixão, Joao Saro, Rita Mateus, Daniel Correia, António Padilha, Abilio Silva, Ricardo Duarte, Tiago Queiroz, Joao Salvado, Francisco Fonseca, João Nelas, Diogo Sampaio Viana, Rafael Santos, Carmen Camacho, José Soveral, Andre Oliveira, José Jesus, Ana Sousa Amorim, Luís Costa, Sara Mesquita, João Bernardino, Manuel Martins

Vasco Sá Pinto, Rui Baldaia, Luis Quelhas Valente, Rui Carrilho, João Castanheira, Luis Marques, Joana Margarida Alves Martins, Tiago Pires, Francisco dos Santos, João Raimundo, Renato Vasconcelos, Marta Baptista Coelho, Hugo Correia, Mariana Barosa, Miguel Palhas, Pedro Rebelo, Nuno Gonçalves, rodrigo brazão, Pedro, Vasco Lima, Tomás Félix, José Carlos Abrantes, Duarte, José Galinha, José Oliveira Pratas, isosamep, João Moreira, Joao Pinto, Pedro alagoa, Francisco Aguiar, José Proença, Joao Diogo, JP, Marco Coelho, João Diogo Silva, Jose Pedroso, António Amaral, João pinto, Rodrigo Murteira Pedrosa, João Jaime, João Crispim, Ricardo Nogueira, Margarida Gonçalves, Miguel Lamela, Andrea Grosso, João Pinho, Andre Peralta Santos, Abílio Mateus, Paulo dos Santos, Telmo, Cátia João Prudêncio, Sérgio Catalão, joao Martins, Luis Filipe, Jose António Moreira, João Barbosa, Fonsini, Maria Francisca Couto, Carlos Magalhães Lima, Renato Mendes, Andreia Esteves, Alexandre Freitas, Tiago Costa da Rocha, Francisco Santos, Pedro F. Finisterra, Guilherme Pimenta Jacinto, Antonio Albuquerque, Fernando Sousa, juu-san, joana antunes, Francisco Vasconcelos, Gabriela, Paulo Ferreira, MacacoQuitado – Twitter, Pedro Correia, Francisco López Bermudez, Nuno Almeida, Carlos Silveira, Bruno Lamas, Francisco Manuel Reis, Diogo Rombo, Francisco Rocha, Fábio Mota, Diogo Silva, Tiago Gameiro, Pedro Conceição, Patrícia Esquível, Inês Patrão, Luis Miguel da Silva Barbosa, Albino Ramos, Daniel Almeida, Ricardo Campos, Ricardo Leitão, Vítor Filipe, João Bastos, Natália Ribeiro, André Balças, Hugo Domingues

 

Esta conversa foi editada por: Martim Cunha Rego

Bio: Henrique Leitão, a quem foi atribuído o Prémio Pessoa 2014, tem vindo a desenvolver intenso trabalho na área da história da ciência. É doutorado em Física e actualmente Presidente do Departamento de História e Filosofia da Ciência (FCUL). Interessa-se, em particular, pela história das ciências exactas nos séculos XV-XVII, pela história da ciência em Portugal e pela história do livro científico. É autor de vasta bibliografia sobre estes temas. É membro efectivo da Académie Internationale de Histoire des Sciences e é o representante de Portugal na Division of the History of Science and Technology, da International Union of History and Philosophy of Science. Entre outras associações nacionais, é sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio emérito da Academia de Marinha. Coordena a comissão científica encarregue de publicar a obra completa de Pedro Nunes. Das suas traduções, destaca-se a tradução, pela primeira vez em Portugal, da obra emblemática de Galileu, Sidereus Nuncius. O Mensageiro das Estrelas (Fundação Calouste Gulbenkian, 2010). Recebeu uma Advanced Grant do European Research Council em 2019.

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